Opinião: Rodrigo Leão - "Além de preto, é viado!"
20/09/2017 - 10h09 em Novidades

Originalmente publicado no facebook.

"ALÉM DE PRETO, É VIADO??"
sim bb.
Quando eu ouvi pela primeira vez, foi na escola. acho que antes sequer da quinta série. Veio de um menino mais velho, corpudo, e... preto. As outras vezes, sempre de homens mais velhos, alguns negros. Seja na época em que me confundiam com uma menina na infância, seja na adolescência quando eu andava de calça apertada na rua entre o grupo de homens errado, e agora aos 20 anos. As frases mudam, mas a ideia é a mesma.
Por um lado, o estranhamento nos meios LGBTTs e brancos. Homem preto age de acordo com o pedigree. Mas se foge do treinamento, nós também temos uma sela pra encaixar esse bicho, digo, bicha. Se não é um bichinho de colo, é um animal comedor, e se não for nenhum dos dois, é bicha pão com ovo, desova dos piores xingamentos, tratamentos e desejos. o que o teu namoradinho branco não quer na cama, a pão com ovo, a bicha preta, o viado "morenão" serve até em cima da mesa.
Do outro lado, em círculos negros, até mesmo de militância se tu tiver azar, tu vai encontrar o mesmo olhar de estranhamento. ué. não é um homem negro? que tal orgulhar a raça? que tal parar de reproduzir "coisas de branco"? Na real, eu já ouvi esse tipo de discurso de pessoas que não realmente militam, mas trazem a questão racial a tona nessas situações. Porque inconscientemente - só que de um jeito muito consciente - homens negros sabem do seu papel na sociedade. Nos círculos sociais, no mercado de trabalho, na cama. E se tem uma coisa que nós fazemos sem pensar duas vezes, é ensinar uns aos outros como se encaixar nesses scripts quando alguma coisa parece fora do lugar. O racismo é um crime perfeito justamente porque faz com que as vítimas o reproduzam, o que garante que ele continue vivo e se alimentando de nós a cada segundo.
Chegando em Belém depois da viagem, depois de ficar sem contato, depois de mal ter falado com as pessoas de casa, o meu orientador, amigos... ter o famigerado "afastamento" da realidade, eu me deparo com "cura gay"* e "ameaças à militantes negros e LGBTT" na minha universidade**
Com todas as reflexões que eu andava tendo na viagem recente, sobre solidões minhas e nossas, autossabotagens, nossa segurança, eu esqueci das mesmas reflexões diárias que eu já tinha pra cá. E parece que elas nunca tiveram prazo pra cessar, ou limite de estado.
Não adianta se afastar de Belém, quando ser negro no Brasil é crime. Não adianta fingir que tá suave ser bicha em outro estado, quando em todos os estados tem gente misturando política e religião. 
Eu vou continuar fazendo posts sobre racismo, enquanto arte-educador ou simplesmente artista, eu vou continuar falando sobre racismo, por ser preto e pensar a respeito disso, sobretudo no Brasil, eu vou continuar falando de racismo. E sendo gay, eu vou falar de homofobia, sem nunca desatrelar da minha sigla, a minha vivência enquanto preto. Não dá pra fingir que racismo tá pra lá e LGBTTfobia pra cá. Não dá pra achar que uma pessoa preta e LGBTT sofre só racismo aqui, e só LGBTTfobia ali, quando a gente sabe que nós somos os primeiros a sofrer qualquer violência, e quando sofremos, não é pouco. Não dá pra pedir aos céus que possamos lidar com uma coisa sem lidar ao mesmo tempo com a outra. Pra mim não funciona, e nunca vai funcionar. Pra nenhum de nós.
Enfim, além de preto, eu sou viado. E todos os dias me lembram disso. Ainda não somos pessoas. Ainda somos negros e negras, homens e mulheres, ainda somos uma sopa de letrinhas que difere um monte de gente de acordo com características que só são trazidas a tona e pontuadas diariamente porque essas pessoas sofrem. Preto, LGBTT é lindo e super legal de falar, mas imagina que doido, imagina que coisa super estranha se a gente nem precisasse falar disso desse jeito?? Pois é, não "somos todos humanos", eu pelo menos ainda não cheguei lá, de acordo com a filosofia que essa frase carrega.
Me pergunto o quão mais leve deve ser pra pessoas que recebem a herança colonial de serem só "pessoas" 24h por dia, todos os dias, desde que nascem.

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