NOTA DE REPÚDIO: A TV LIBERAL SABE O QUE É RACISMO?
25/05/2017 - 8h17 em Novidades

NOTA DE REPÚDIO: A TV LIBERAL SABE O QUE É RACISMO?

 

A imprensa não é diferente da sociedade. Dentro da sociedade racista a imprensa tem seu papel. Assim como a universidade, ela reproduz os estereótipos e o sistema dominante. A imprensa não está aí para contestar. Ela desacredita as cotas, o movimento negro, qualquer coisa que o movimento antirracista propõe a imprensa está lá para barrar, distorcer, destruir, porque a imprensa faz parte do status quo – como a academia e a igreja. Em uma sociedade racista as instituições são racistas.” (CARLOS MOORE)

 

São tempos de golpes. Golpes que se alastram vertical e horizontalmente. Na política, na economia, na educação e nas comunicações. Emissoras que se beneficiam de uma concessão pública e agem de formas irresponsáveis e desonestas, como a proliferação de uma questão inexistente no Brasil que é o racismo contra pessoas brancas.

 

Nós profissionais, pesquisadores e docentes de Comunicação, nos manifestamos em repúdio à matéria veiculada pelos telejornais da TV LIBERAL - afiliada da Rede Globo no Pará - com o título “Estudantes da UFPA trocam ofensas racistas após pichações em mural” sugerindo horizontalidade no trato sobre racismo entre pessoas negras e brancas a partir de uma intervenção feita em uma placa no curso de Direito da Universidade Federal do Pará (UFPA).

 

É repugnante ver como uma emissora que detém a maior concentração de investimentos publicitários e com os maiores índices de audiência não se debruça em práticas responsáveis do ofício de comunicar e informar a sociedade e age de forma leviana ao (não) apurar fatos e noticiar questões que são um grande mal estar social e que são o ponto de partida para tanta violência simbólica e concreta.

 

Se a TV Liberal não sabe o que é racismo, nós explicamos. O racismo é estrutural. É o subsídio principal da sociedade brasileira. E nessa estrutura pessoas brancas não têm sua humanidade deslegitimada por sua cor de pele, independente de classe social, independente de terem parentes negros, independente de casarem com pessoas negras ou qualquer outra tentativa de argumento que faça pessoas brancas tentarem legitimar um racismo contra si que inexiste.

 

O sistema escravocrata que deu base ao desenvolvimento do Brasil enquanto “nação” alimenta até hoje a política genocida do Estado brasileiro contra a população negra e a população indígena, historicamente tratadas como subumanas. Não existe horizontalidade no racismo. Portanto o que aconteceu após a publicação da imagem da placa riscada não foi “troca de ofensas racistas”, foi unicamente um arsenal de manifestações racistas de pessoas brancas contra a comunidade negra. O post foi apagado, mas existem prints que comprovam que não existe medida nas supostas “trocas de ofensas”. Caso a TV Liberal não saiba, não existem medidas comparativas entre as reações de oprimidos e as violências de opressores.

 

O FORA BRANCOS registrado na placa é a manifestação legítima de uma indignação sustentada pelo racismo institucional vivido diariamente por estudantes negros na Universidade Federal do Pará que são impedidos de acessar os espaços da universidade mesmo depois de apresentarem comprovantes de matrícula nas portarias da instituição. Isso sim é crime, TV Liberal. Racismo é crime inafiançável. A UFPA deveria ser chamada a responder por este crime, mas a emissora opta por ignorar a violência sobre as vidas dessa juventude negra que é impedida de bem viver e prefere noticiar algo que não existe: o racismo contra brancos. A TV Liberal realmente não se propôs a apurar os fatos. A autoria da intervenção na placa de formatura do curso de direito não é revelada e sequer sabemos se foi de fato uma pessoa negra quem a fez.

 

E esse tipo de irresponsabilidade na Comunicação nós repudiamos! Como afirma a jornalista Veruska Sayonara de Góis, “a comunicação caracteriza-se por ser um processo dinâmico de interrelações e interação humana, vital para o aspecto gregário do agrupamento social”. O acesso à comunicação é um direito constitucional e atropelar esse direito gera prejuízos políticos e sociais de dimensões estruturais como a manutenção de um discurso racista que só beneficia a quem já controla a economia e a política. Repetimos: o racismo é um sistema estrutural, cuja competência, culturalmente cultivada nesses mais de 500 anos de colonização, reverbera em todas as instituições nacionais, sejam elas públicas ou privadas, e causam danos muitas vezes irreversíveis ao bem viver das populações. E a Comunicação, como área que gera conhecimento, também é responsável por essas vidas.

 

 

“Enquanto os leões não tiverem os seus contadores de histórias, as histórias das caçadas glorificarão os caçadores”.

Provérbio  Yorubano

 

 

A necessidade da hegemonia propagada pela ideologia do racismo em veículos de comunicação comandados por políticos que usam de interpretações falaciosas para a manutenção do poder de comando de instituições públicas, sempre gerou violência contra o povo negro. O fascismo brasileiro no século XXI usa da mesma estratégia de negação à humanidade de origem ou descendência africana que há cinco séculos atrás justificou o escravismo português e a violência contra negros e suas tradições.

 

Essa mesma estratégia de propagação da criminalização da luta por liberdade e igualdade do povo negro, que vem do caráter midiático dos púlpitos das igrejas na época de formação da resistência quilombola, para as páginas dos jornais e programas de televisão dos dias atuais, é essa mídia racista que elege gestores e legisladores que usam sensacionalismo fascista para legitimar a violência praticada contra a população negra, agora expressa na bancada BBB que se traduz em bala a exterminar a juventude negra, no boi a legitimar o avanço do agronegócio sobre terras indígenas e de quilombos, e da bíblia, a exterminar a cosmologia africana em terras brasileiras.

 

Temos dois caminhos possíveis para o futuro: ou atribuímos poder político e midiático ao povo negro e à ancestralidade africana na diáspora brasileira, ou seremos eternamente este arremedo de desenvolvimento em uma Europa que nunca vai dar certo.

 

Diante disso, exigimos que a TV Liberal seja mais responsável com aquilo que notícia ao invés de apresentar falsas informações.

 

 

 

 

Assinam:

Blog Gorda & Sapatão

Carolina Martins

Colaboradores da Rádio Exu

Coletivo de comunicação Outros 400

Dilermando Gadelha

Flavia Aylime Mendes

Guilherme Guerreiro Neto

Isaac Meier Serruya

Monise Ferreira Cardoso

Nathalia Fonseca

Sabrina Morais

Sérgio Rodrigo Ferreira

Táta Kinamboji (Arthur Leandro)

Thiago Freire

Thiane de Nazaré Monteiro Neves Barros -

Yasmin Uchoa

Valeria Silveira

Ana Carla Oliveira

CEDENPA - Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará

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